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A pintura retrata um instante muito doce e quotidiano. Vemos uma mulher elegantemente vestida a observar, com atenção, uma menina que mergulha um biscoito no seu café com leite. Um detalhe delicioso e muito "humano" é o facto de a criança ainda ter rolos de papel no cabelo, mostrando que a sua preparação para o dia ainda está a meio.

Símbolos de Status e Riqueza

Apesar de parecer uma cena simples, ela grita "luxo" por todos os lados para a época:
- Bebidas Caras: No século XVIII, o café e o chocolate eram produtos exclusivos e caríssimos, acessíveis apenas à elite.
- Objetos de Luxo: A porcelana chinesa, o bule de prata e a bandeja de laca não eram apenas utensílios; eram símbolos de uma posição social elevada.

A Mestria de Liotard no Detalhe

O que realmente distingue o Liotard é a sua técnica quase fotográfica. Ele não se limita a pintar objetos; ele "constrói" texturas:
- Reflexos Reais: Ele usa camadas densas de pastel para criar os reflexos na prata e na porcelana. Consegues quase sentir o brilho da bandeja de laca onde tudo está apoiado.
- A Assinatura Escondida: Liotard foi muito criativo aqui. Em vez de assinar num canto, escreveu o seu nome, a data e o local (Liotard / a Lyon / 1754) numa partitura de música que sai de uma gaveta entreaberta.

Embora a obra funcione quase como uma "natureza-morta com figuras humanas", acredita-se que os modelos sejam familiares do próprio pintor, a família Lavergne, que vivia em Lyon (daí a inscrição na partitura). É por isso que sentimos uma proximidade e um carinho que não se vê em retratos encomendados mais formais. É curioso comparar esta obra com a do Lancret, não achas? Enquanto um foca o "flirt" e o perigo, Liotard foca o conforto e a ligação familiar.

Até meados do século XVIII, as crianças eram quase sempre pintadas como "mini-adultos": usavam roupas pesadas e rígidas e tinham expressões demasiado sérias. Mas, por volta da altura em que o Liotard pintou a família Lavergne, algo mudou.

Aqui tens três pontos-chave para entenderes essa evolução:
1. O Nascimento da "Infância"
Graças a pensadores como Jean-Jacques Rousseau, a sociedade começou a ver a infância como uma etapa única da vida, e não apenas uma fase de espera pela idade adulta. Vês isso nos rolos de papel no cabelo da menina. É um detalhe descontraído, quase um "atrás das câmaras", que humaniza a criança em vez de a apresentar como uma estátua perfeita.

2. Do Formal ao Brincalhão
Depois desta época (entrado o século XIX), os pintores começaram a focar-se no brincar. Começamos a ver crianças com bochechas rosadas, a correr, a brincar com animais de estimação ou a fazer tropelias. A rigidez deu lugar ao movimento e à espontaneidade.

3. O Foco na Educação e no Afeto
A relação entre pais e filhos passou a ser o tema central. Neste quadro olhar da mulher não é de vigilância severa, mas de ternura. Esta mudança preparou o caminho para artistas posteriores (como os Impressionistas) que passaram a pintar a infância como um período de luz, cor e liberdade.

Título completo: The Lavergne Family Breakfast (aqui)
Artista: Jean-Étienne Liotard 
Datas do artista: 1702 - 1789 
Data de fabricação: 1754 
Médio e suporte: Pastel sobre papel, montado em tela 
Dimensões: 80 × 106 cm 
Resumo da inscrição: Assinado; Datado 
Crédito de aquisição: Aceito em substituição do Imposto sobre Heranças pelo Governo de Sua Majestade, proveniente do espólio de George Pinto e destinado à Galeria Nacional, 2019. 
Número de inventário: NG6685 
Localização: Quarto 42 
Coleção: Coleção principal 
Quadro: Moldura francesa do século XVIII

The National Gallery
Trafalgar Square
London
WC2N 5DN



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